O pesquisador William Wills, do Centro Clima, publicou um artigo que analisa as oportunidades e os desafios para o Brasil diante da regulamentação do Artigo 6 do Acordo de Paris, mecanismo que estabelece as bases para a cooperação internacional envolvendo a transferência de resultados de redução de emissões entre países.
No texto, Wills destaca que a discussão vai além da quantidade de créditos de carbono que o Brasil poderá transferir internacionalmente. Para o pesquisador, a regulamentação deve considerar como a demanda global por redução de emissões pode ser utilizada para atrair investimentos, modernizar o parque produtivo, gerar empregos e ampliar a capacidade brasileira de cumprir seus próprios compromissos climáticos.
Um dos pontos analisados é a proposta de limitar a 50 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (CO₂e) o volume a ser transferido entre 2031 e 2035. Segundo o artigo, estabelecer um teto rígido com base em estimativas anteriores pode restringir as oportunidades brasileiras diante de um mercado internacional que tende a se transformar à medida que as metas climáticas se tornam mais exigentes.
Wills cita um estudo desenvolvido para a IETA Brasil, que identificou potencial técnico da ordem de 100 milhões de toneladas de CO₂e por ano para transferências internacionais. O pesquisador ressalta, entretanto, que isso não significa que todo esse potencial será necessariamente implementado, já que os projetos dependem de fatores como financiamento, infraestrutura, licenciamento e capacidade institucional.
Para o pesquisador, o principal critério da regulamentação não deveria ser apenas a quantidade de resultados de mitigação transferidos, mas o legado econômico, tecnológico e ambiental proporcionado pelos projetos.
Nesse sentido, iniciativas financiadas pelo mercado internacional de carbono poderiam contribuir para instalar novas infraestruturas, recuperar áreas degradadas, introduzir tecnologias, estimular a descarbonização industrial e criar empregos qualificados.
A proposta defendida no artigo é de uma regulamentação seletiva, progressiva e adaptativa, capaz de avaliar as características e os benefícios de cada iniciativa e, ao mesmo tempo, preservar parte das reduções de emissões para contribuir com o cumprimento das metas climáticas brasileiras.
Simulações apresentadas no estudo da IETA ajudam a dimensionar esse potencial. Em um cenário que combina descarbonização industrial e soluções baseadas na natureza, sem estabelecer previamente um teto para os ITMOs e mantendo metade da mitigação gerada no Brasil, o modelo estimou transferências de aproximadamente 120 milhões de toneladas de CO₂e por ano. Para 2035, esse cenário indicou um PIB 1,2% superior ao cenário de referência, R$ 71,6 bilhões em investimento estrangeiro e cerca de 190 mil empregos adicionais.
Os números não são apresentados como previsão, mas como uma demonstração da dimensão que o mercado pode alcançar e de como diferentes escolhas regulatórias podem produzir impactos econômicos distintos.
O artigo destaca que o Brasil reúne numerosas oportunidades de redução de emissões a custos competitivos, mas enfrenta um desafio fundamental: mobilizar capital suficiente para transformar esse potencial em projetos concretos.
Nesse contexto, o Artigo 6 pode funcionar como uma ponte entre a demanda internacional por mitigação e as oportunidades brasileiras de investimento em tecnologias e projetos de baixo carbono.
Para Wills, o sucesso da regulamentação não deverá ser avaliado somente pelo número de créditos comercializados, mas principalmente pelos benefícios que permanecerão no país após cada transação — como investimentos, novas tecnologias, empregos, produtividade e maior capacidade de reduzir emissões.
A discussão coloca o mercado de carbono como uma possível ferramenta para apoiar a reindustrialização verde, a modernização tecnológica e a implementação das políticas climáticas brasileiras, transformando o potencial de mitigação do país em uma vantagem competitiva para um novo ciclo de desenvolvimento de baixo carbono.
Fonte: Neomondo
O Centro Clima da Coppe/UFRJ participou, nos dias 22 e 23 de junho, em Paris, do workshop internacional do projeto 2050 é Agora, iniciativa desenvolvida em parceria com o IDDRI (Institute for Sustainable Development and International Relations) e o WRI (World Resources Institute). O encontro reuniu representantes de governos, instituições de pesquisa e organizações de diversos países para discutir metodologias de modelagem climática e estratégias de longo prazo para a transição rumo a economias de baixo carbono.
Representando o Centro Clima, o professor Emilio Lebre La Rovere, referência nacional e internacional em mudanças climáticas e planejamento energético, apresentou a experiência brasileira na construção de cenários de descarbonização e no uso de modelos integrados para apoiar políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável e à mitigação das emissões de gases de efeito estufa.
O projeto 2050 é Agora tem como objetivo apoiar governos e instituições na elaboração de estratégias de desenvolvimento de longo prazo compatíveis com as metas climáticas globais, fortalecendo capacidades técnicas, ferramentas analíticas e processos de tomada de decisão relacionados às Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), planos de desenvolvimento e estratégias setoriais. O programa reúne parceiros da Argentina, Brasil, Etiópia, Índia, Indonésia, México e África do Sul, promovendo a troca de experiências e boas práticas em modelagem para políticas climáticas.
Durante o workshop, Emilio La Rovere compartilhou os resultados e aprendizados acumulados pelo Centro Clima ao longo de mais de uma década de estudos sobre os impactos econômicos e sociais da transição para uma economia de baixo carbono no Brasil. A apresentação destacou a combinação entre modelagem quantitativa e participação de múltiplos atores da sociedade na construção de cenários climáticos, metodologia que tem sido aplicada em projetos estratégicos nacionais e internacionais.
Um dos destaques apresentados foi o IMACLIM-BR, modelo macroeconômico desenvolvido no âmbito do Centro Clima e da Coppe/UFRJ, utilizado para analisar os impactos econômicos, sociais e ambientais de diferentes trajetórias de desenvolvimento e descarbonização. A ferramenta integra modelos setoriais de energia, indústria, transportes, resíduos, agricultura e uso da terra, permitindo avaliar investimentos, necessidades de financiamento, geração de empregos, distribuição de renda e redução de emissões.
Segundo Emilio La Rovere, a experiência brasileira demonstra a importância de combinar conhecimento científico, modelagem integrada e diálogo entre governo, setor privado, academia e sociedade civil para apoiar decisões estratégicas relacionadas ao desenvolvimento sustentável e à ação climática. Entre os principais desafios identificados estão a representação de instrumentos financeiros para viabilizar investimentos de baixo carbono e a modelagem de novos setores econômicos que surgem durante a transição energética.
A participação do Centro Clima no workshop reforça o protagonismo da Coppe/UFRJ nas discussões internacionais sobre mudanças climáticas, planejamento de longo prazo e desenvolvimento sustentável, consolidando sua contribuição para a construção de soluções baseadas em evidências científicas e ferramentas avançadas de modelagem.
Como parte das atividades relacionadas ao projeto, estão disponíveis dois vídeos produzidos por William Wills, pesquisador responsável pelo desenvolvimento do modelo IMACLIM-BR em sua tese de doutorado defendida no Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, sob orientação do professor Emilio Lebre La Rovere. Os vídeos apresentam a estrutura, as aplicações e a relevância da ferramenta para análises de cenários climáticos e econômicos no Brasil.
Veja apresentação do professor Emílio Lebre La Rovere AQUI.
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O lançamento do Climate Mitigation Finance Guide reuniu mais de 406 inscritos, com 185 participantes acompanhando o evento ao vivo, consolidando a iniciativa como um importante espaço de discussão sobre mecanismos de financiamento para a mitigação das mudanças climáticas e a transição para uma economia de baixo carbono.
Desenvolvido para apoiar instituições financeiras, formuladores de políticas públicas e agentes do setor privado, o guia apresenta diretrizes práticas para a identificação, avaliação e ampliação de investimentos voltados à mitigação climática. A publicação busca facilitar a mobilização de recursos para projetos capazes de reduzir emissões de gases de efeito estufa e promover o desenvolvimento sustentável.
Durante o evento, especialistas de organizações internacionais, instituições financeiras e centros de pesquisa discutiram os desafios e oportunidades para ampliar o financiamento climático, especialmente em países em desenvolvimento. As apresentações destacaram a importância de mecanismos financeiros inovadores e de estratégias capazes de alinhar investimentos às metas globais de mitigação e adaptação climática.
Entre os palestrantes esteve o professor Emilio Lèbre La Rovere (Centro Clima/COPPE/UFRJ), que abordou estratégias para direcionar investimentos globais para projetos resilientes e de baixo carbono no Sul Global. Sua apresentação destacou a necessidade de fortalecer instrumentos financeiros que apoiem uma transição energética justa e sustentável, ampliando o acesso a recursos para países em desenvolvimento.
O encontro também contou com representantes do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), da UN Climate Change, da CAF – Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe e do Caribbean Regional Fisheries Mechanism, reforçando a dimensão internacional do debate.
Os organizadores agradeceram a participação dos palestrantes, parceiros institucionais e participantes que contribuíram para o sucesso do lançamento, ressaltando que a cooperação internacional e o fortalecimento dos mecanismos de financiamento serão fundamentais para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas.
O Climate Mitigation Finance Guide já está disponível para consulta pública e pode servir como referência para profissionais do setor financeiro, pesquisadores, gestores públicos e demais interessados na agenda climática.
Para quem não pôde acompanhar a transmissão ao vivo ou deseja rever os principais debates, já está disponível o vídeo com os melhores momentos do evento, reunindo destaques das apresentações, discussões e reflexões sobre financiamento climático e transição para uma economia de baixo carbono.

Assista aos melhores momentos AQUI
Guia Completo: Acesse o documento completo AQUI
Apresentação do Prof. Emilio Lèbre La Rovere: Acesse o material apresentado durante o evento AQUI
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É com profundo pesar que o Centro Clima comunica o falecimento de John Christensen, ocorrido em 8 de junho de 2026.
Reconhecido internacionalmente por sua atuação na área das mudanças climáticas, John foi fundador e diretor do Centro de Colaboração em Energia e Meio Ambiente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP RISO Centre), sediado em Roskilde, na Dinamarca. Sua visão pioneira e seu compromisso com a construção coletiva do conhecimento deixaram marcas profundas na comunidade científica internacional.
A relação de John Christensen com a UFRJ remonta ao início da década de 1990. Entre 1990 e 1993, ele convidou pesquisadores do Programa de Planejamento Energético (PPE/COPPE/UFRJ) a integrarem um dos primeiros projetos internacionais voltados à mitigação das mudanças climáticas, antes mesmo da criação do Centro Clima. Desenvolvido em rede com instituições de pesquisa de diferentes países, esse trabalho inaugurou uma parceria duradoura e estabeleceu um modelo colaborativo que viria a orientar diversas iniciativas do Centro Clima ao longo dos anos.
A partir dessa experiência, foram construídas importantes cooperações internacionais, incluindo projetos desenvolvidos no âmbito da Global Network on Energy for Sustainable Development (GNESD) e, mais recentemente, em redes como a Deep Decarbonization Pathways (DDP), consolidando a atuação do Centro Clima em estudos estratégicos sobre desenvolvimento sustentável e transição climática.
Mais do que um líder reconhecido mundialmente, John Christensen foi mentor, parceiro e amigo. Sua generosidade, sabedoria e dedicação inspiraram gerações de pesquisadores comprometidos com a busca por soluções para os desafios climáticos do nosso tempo.
O depoimento do professor Emilio Lèbre La Rovere destaca John Christensen como um dos principais articuladores da cooperação internacional entre países desenvolvidos e em desenvolvimento na agenda climática. Visionário e comprometido com a formação de capacidades nos países do Sul Global, John foi responsável por aproximar a UFRJ de iniciativas pioneiras sobre mitigação das mudanças climáticas, deixando um legado científico, humano e institucional que continua inspirando pesquisadores em todo o mundo.
Neste momento de tristeza, o Centro Clima presta sua homenagem e expressa solidariedade à família, aos amigos e aos colegas de John Christensen.
Seu legado permanece vivo nas redes de colaboração que ajudou a construir, nos projetos que inspirou e nas pessoas que formou ao longo de sua extraordinária trajetória.
Carta de Homenagem a John Christensen AQUI
O professor Emilio Lèbre La Rovere, pesquisador do Centro Clima da COPPE/UFRJ, está entre os signatários da Declaração em Defesa do Reporte Financeiro de Sustentabilidade no Brasil, documento que mobilizou representantes de instituições financeiras, empresas, consultorias, universidades e organizações da sociedade civil em apoio à manutenção da obrigatoriedade dos reportes de sustentabilidade nos padrões internacionais IFRS S1 e IFRS S2.
A iniciativa alcançou 328 assinaturas em menos de dois dias, evidenciando o amplo apoio à agenda de transparência corporativa, gestão de riscos climáticos e divulgação de informações relacionadas à sustentabilidade. Entre os signatários estão representantes de instituições como Banco Mundial, Bank of America, FGV, Fundação Dom Cabral, Insper, USP, UFMG, Instituto Ethos, Pacto Global da ONU, Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), além de pesquisadores e especialistas de diversas áreas.
A declaração foi encaminhada à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a veículos de comunicação para subsidiar um pedido de audiência junto ao Colegiado da autarquia. O objetivo é apresentar argumentos técnicos favoráveis à manutenção da obrigatoriedade dos reportes financeiros de sustentabilidade, alinhados aos padrões desenvolvidos pelo International Sustainability Standards Board (ISSB).
Segundo o documento, o Brasil foi o primeiro país do mundo a incorporar os padrões IFRS S1 e S2 ao seu arcabouço regulatório por meio da Resolução CVM 193, posicionando-se na vanguarda internacional da transparência corporativa e da divulgação de informações relacionadas à sustentabilidade. A implementação previa um período de transição gradual, com adoção voluntária a partir de 2024 e obrigatoriedade para o ano-base de 2026.
Os signatários argumentam que a recente edição da Resolução CVM 244, que tornou voluntária a divulgação dessas informações, representa um retrocesso regulatório com potenciais impactos para investidores, empresas e para a credibilidade do mercado de capitais brasileiro.
O documento destaca que pesquisas realizadas pela própria CVM indicaram que cerca de 70% das companhias abertas já haviam iniciado sua adaptação aos padrões internacionais, enquanto diversas empresas manifestaram interesse em adotar antecipadamente os requisitos de reporte. Além disso, os estudos apontam benefícios associados à maior transparência corporativa, ao fortalecimento da governança e à melhoria da gestão de riscos climáticos.
Entre os principais argumentos apresentados na declaração estão:
Os signatários também alertam que eventos climáticos extremos recentes, como enchentes, secas e ondas de calor, já produzem impactos concretos sobre atividades econômicas e demonstrações financeiras, reforçando a necessidade de mecanismos padronizados para identificar, mensurar e divulgar esses riscos.
A adesão do professor Emilio Lèbre La Rovere à declaração reforça o compromisso do Centro Clima da COPPE/UFRJ com a produção de conhecimento científico e com o fortalecimento de políticas públicas e práticas corporativas voltadas à sustentabilidade, à transparência e ao enfrentamento das mudanças climáticas.
Reconhecido nacional e internacionalmente por suas contribuições nas áreas de mudanças climáticas, energia e desenvolvimento sustentável, o pesquisador integra um grupo de especialistas que defende a manutenção de padrões robustos de divulgação de informações ambientais, sociais e de governança como instrumento essencial para o desenvolvimento econômico sustentável.
A expectativa dos organizadores é que o diálogo técnico com a CVM contribua para preservar avanços importantes na agenda de reporte corporativo de sustentabilidade no Brasil, fortalecendo a confiança dos investidores, a qualidade das informações divulgadas ao mercado e a inserção do país na economia global de baixo carbono.
Acesse AQUI a declaração completa.